Reconhecer o nosso valor não é uma decisão pontual
Sopro d'Alma
A dúvida comanda a vida. Uma crítica, um comentário ou até um olhar são, demasiadas vezes, suficientes para nos derrubar. Minam a nossa confiança. Fazem-nos esquecer quem somos. Medimos o nosso valor pela bitola dos outros e questionamo-nos frequentemente sobre o nosso próprio valor. Quando temos oportunidade de parar este círculo vicioso, já nem sabemos bem o que queremos para nós para além da aprovação constante dos outros. Fomos aprendendo a medir o nosso valor através de palavras, de gestos, de oportunidades, de pessoas que ficaram e de outras que escolheram partir. Quase sem darmos conta, começámos a interiorizar que talvez não sejamos assim tão bons, tão capazes ou tão merecedores como gostaríamos de ser.
Como é que chegámos aqui? Não aceitamos um elogio, porque achamos que somos pequenos demais, não aceitamos uma conquista, porque duvidamos das nossas capacidades, justificamos as nossas escolhas, porque procuramos valorização. Como é que é tão difícil conceder reconhecimento a nós próprios? A resposta é complexa, mas relaciona-se com o facto de crescermos numa sociedade que nos ensina a comparar, a competir e a procurar sinais de que estamos a fazer alguma coisa bem. Somos elogiados apenas quando temos bons resultados, quando somos úteis e quando correspondemos às expectativas. Vivemos como se fossemos constantemente uma prova, onde procuramos confirmar que somos dignos de ocupar o espaço que ocupamos. Ficamos vulneráveis à instabilidade do mundo porque a nossa identidade fica à mercê das mãos de quem nos observa.
Ainda que as relações e o sentido de pertença sejam essenciais num contexto social, é importante não entregar nos outros a responsabilidade de decidir quanto valemos. Na verdade, merecemos um exercício de honestidade e justiça connosco próprios – reconhecendo as nossas limitações, mas sabendo que não são elas que nos definem. Quantas vezes ignoramos o caminho já percorrido porque estamos demasiado concentrados na distância que falta percorrer? Quantas vezes desvalorizamos as pequenas vitórias porque não correspondem à dimensão da conquista que idealizámos? Habituámo-nos a olhar para o que nos falta sem conseguir ver (e reconhecer) o que já existe.
A forma como nos vemos influencia profundamente a forma como nos relacionamos com os outros e com o mundo. A forma como nos aceitamos pode até vir a refletir a forma como os outros nos aceitam. Por isso mesmo, devemos permanecer em lugares onde não precisamos de provar o nosso valor constantemente e deixar de interpretar todos os afastamentos na nossa vida como rejeições pessoais. Nem todas as pessoas precisam de gostar de quem somos. Todas as relações saudáveis permitem que sejamos quem somos, sem termos que mudar para sermos aceites.
Reconhecer o nosso valor não é uma decisão pontual, é uma relação séria que construímos connosco ao longo do tempo. É uma relação que, como qualquer outra, exige atenção, honestidade, disponibilidade e cuidado. É uma relação baseada na escuta do que somos e do que precisamos – e isso exige muita paciência no processo. É uma relação feita de uma única escolha: aquela que nos prioriza, sem medos nem culpas, reconhecendo que ‘se eu não gostar de mim, ninguém gostará’. É nessa escolha diária que nos transformamos, que mudamos a forma como nos vemos, como nos tratamos e como permitimos que os outros nos tratem.
Da próxima vez que sentirmos que não somos capazes, paramos, respiramos e perguntamo-nos se estamos a olhar-nos por inteiro ou a ver-nos através dos olhos de alguém. Depois, relaxamos. E lembramo-nos que não precisamos de ser extraordinários aos olhos do mundo. Precisamos, isso sim, de aprender a não esquecer o nosso valor nos dias em que o mundo não nos consegue lembrar dele.
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