A culpa tem uma subtileza curiosa. Aproxima-se devagar e instala-se em silêncio. Sem darmos conta, molda a forma como pensamos, como sentimos e como agimos. Não chega com um estrondo. Pelo contrário, é um sussurro constante que nos lembra tudo o que poderíamos ter feito de outra forma, tudo o que não correu como imaginámos, todas as versões alternativas de nós mesmos que acreditamos que teriam sido melhores.
Nesse loop de culpabilização, ficamos amarrados ao passado, como se o que aconteceu definisse, para sempre, aquilo que comos e que ainda podemos vir a ser. É uma corrente que nos limita – em vez de permitir que um erro seja uma experiência e aprendizagem, a culpa transforma-o em rótulo. É uma narrativa que nos diminui, uma prisão, uma anestesia que nos paralisa. Com culpa, vivemos um ciclo de arrependimento que não resolve nada, mas que consome energia, tempo e confiança. Evitamos agir com medo de falhar novamente. Não arriscamos porque o peso do que vivemos parece grande demais. Poupamo-nos nas relações porque receamos repetir padrões. Ironicamente, a culpa começa por nos ferir e acaba por nos proteger de forma tóxica porque impede qualquer possibilidade de mudança.
A culpa alimenta-se do silêncio. Não falamos sobre ela porque, quase sempre, a sentimos como uma falha íntima, que não queremos revelar ao mundo. Contudo, é esse silêncio que lhe dá espaço para crescer. A culpa força-nos a esconder partes de nós mesmos, como se elas fossem demasiado feias para serem vistas – e quando talvez fossem exatamente essas partes que precisavam de luz para se transformarem. Permanecemos fechados num monólogo interno desgastante, sem perceber que, ao partilhar a nossa vulnerabilidade, podíamos libertar uma parte do peso que carregamos.
O ponto de viragem acontece entre a culpa e a responsabilidade. Ou, mais concretamente, quando entendemos que assumir a responsabilidade não é a mesma coisa que carregar a culpa. A responsabilidade encara o presente de olhos postos no futuro, ao contrário da culpa, que mantém o foco exclusivamente no passado. A responsabilidade é ativa, criativa e transformadora. Dá-nos poder e permite-nos recuperar a sensação de que somos agentes da nossa própria vida, em vez de prisioneiros de algo que não pode ser mudado.
Todos carregamos memórias que, se deixarmos, podem transformar-se em âncoras. Por isso, talvez a pergunta a fazer não seja ‘porque sentimos culpa?’, mas antes ‘o que fazemos com ela?’. Libertar-se da culpa não significa fingir que não errámos. Significa, isso sim, olhar para o nosso interior com honestidade, mas também com compaixão. Na sua essência, a culpa pode ser encarada como um sinal de consciência, como um convite para fazer e ser melhor. É por isso que, apesar da dor que a culpa às vezes causa, temos sempre oportunidade de transformá-la. Podemos escolher olhar para o futuro com mais leveza, com mais abertura, com mais esperança. Podemos escolher recomeçar, tantas vezes quantas forem necessárias. Cada passo que damos em direção ao presente é, por si só, uma libertação do passado. Quando caminhamos com consciência e vontade de crescer, descobrimos que o futuro não depende do que fizemos, mas do que estamos dispostos a fazer agora.

