Desde cedo que somos ensinados que as limitações são entraves, obstáculos, barreiras, por vezes, injustas. As limitações, que podem adquirir diversas formas, atrasam-nos o caminho, barram-nos a felicidade. Entre diversas faltas, de tempo, de dinheiro, de oportunidades, de energia, de boas escolhas, a narrativa repete-se: ‘se eu tivesse mais, eu podia ser feliz’. Procuramos correr atrás de mais liberdade, recursos, possibilidades e a felicidade plena aparece sempre como algo que vive (e que nos espera) do outro lado da limitação.
E se a lógica estiver invertida? Se for precisamente o facto da vida nos limitar, que nos obriga a descobrir, com mais clareza, aquilo que realmente nos faz feliz? Se forem as limitações que nos segredam para agarramos, com toda a força, o que nos preenche?
Os momentos em que a vida nos fecha as portas são, quase sempre, pontos de viragem importantes. Depois da recusa, do questionamento, do aperto no peito e da frustração, forçamos uma escolha: a de viver com o que nos pertence! Quando a vida é ilimitada – ou parece ser -, não há urgência, não há foco, nada é essencial porque tudo é possível. Há demasiados excessos! As limitações cortam-nos esses extremismos, onde vivemos todas as coisas, sem profundidade, sem presença e sem verdadeira satisfação.
Se o tempo é curto, passamos a preenchê-lo melhor. Quando o dinheiro não sobra, aprendemos a dar valor ao que realmente importa. Quando as opções de escolha diminuem, somos obrigados a caminhar conscientes daquilo que verdadeiramente queremos. Não procuramos o que fica bem, o que os outros esperam de nós. Seguimos, de facto, o que nos nutre por dentro. É desconfortável, sim, mas é honesto.
No fundo, há uma sabedoria silenciosa em não poder ter tudo. É que, quem tudo quer, acaba por perder-se. Nas comparações, na ansiedade, na eterna sensação de insatisfação e de falta. A vida sem limites transforma-se facilmente numa corrida sem linha de chegada, mas, pelo contrário, menos é mais. Limitados, ganhamos algo precioso: clareza, foco e uma capacidade única de distinguir o supérfluo do essencial. As limitações reduzem o ruído à nossa volta. No silêncio que criam, conseguimos finalmente ouvir, com clareza, o que sentimos.
A felicidade nasce do alinhamento e raramente é encontrada na abundância absoluta. Viver de acordo com aquilo que somos – e não com tudo aquilo que achamos que deveríamos ser – transporta-nos para um lugar de paz. As limitações que daí advêm, funcionam como filtros naturais, eliminam caminhos que não são nossos, fecham portas que, por mais atraentes que parecessem, não nos levariam a nenhum lugar. É aqui que reside uma das maiores ironias da vida: quanto menos tentamos forçar uma felicidade idealizada, mais espaço criamos para uma felicidade real.
Da próxima vez que mergulhar no turbilhão de uma limitação, lembre-se que o objetivo não é eliminá-la, mas sim, procurar a melhor forma de viver dentro dela. É nesse espaço – imperfeito, finito, humano -, que a felicidade deixa de ser só uma promessa distante e passa a ser uma experiência possível. A vida nunca será totalmente livre de limites.

