Desde cedo que somos habituados a medir o nosso valor pela quantidade. Somos melhores ou piores de acordo com o número de coisas feitas, tarefas cumpridas, pessoas ajudadas, presenças garantidas. Tornamo-nos eficientes, disponíveis e inquietos. Andamos de um lado para o outro, somos sempre necessários, estamos constantemente ocupados e isso, de certa forma, preenche-nos. Há um certo orgulho em conseguir ‘dar conta de tudo’, ser a pessoa com que todos contam e aparentemente nunca falhar.
Contudo, há um momento – às vezes silencioso, outras vezes mais abrupto – em que algo começa a pesar. A questão que nos assola é sempre a mesma: ‘onde é que eu fico no meio disto tudo?’. A sensação de ausência e de falta de preenchimento é evidente, mesmo quando nos mantemos presentes (e disponíveis) em todo o lado. Começamos a questionar o ritmo porque há uma anulação que se torna difícil de ignorar – a nossa própria! Nesse instante, percebemos que não é sustentável viver em aceleração, que não é saudável estar sempre disponível e, sobretudo, que não é justo continuar a colocar-nos no fim da lista, como se fossemos um detalhe opcional da nossa própria vida.
No desconforto da associação de presença a valor, começamos a limpar o nosso próprio espaço, demasiado cheio. Obrigamo-nos a escolher, a tirar tarefas do caminho, a dizer que ‘não’, a adiar compromissos e a reavaliar prioridades. Surge depois a culpa e o questionamento. Até entendermos que menos pode efetivamente ser mais – porque quando deixamos de preencher cada minuto do nosso tempo com algo externo, começamos inevitavelmente a encontrar-nos com aquilo que somos e sentimos ‘cá dentro’.
Encontramo-nos com o silêncio, com pensamentos que estavam adiados, com emoções que foram sendo empurradas para depois. Encontramo-nos com dúvidas, com inseguranças, com perguntas sem resposta. Começamos, devagarinho, a encontrar partes de nós que estavam esquecidas e até apagadas. Ao retirar do caminho, começamos a ver a luz com mais clareza – e o que podia ser só avassalador, começa a ser libertador.
Neste processo, encontramos um ‘novo eu’, que já não reconhecíamos (ou talvez nunca tenhamos encontrado). Aceitar essa revelação é uma jornada demorada, feita de pequenas descobertas, de tentativas e de ajustes. De avanços e recuos. Até atingirmos o conforto, sabendo que não somos propriamente diferentes, só reaprendemos a ouvir-nos. Nesse momento, passamos a proteger o nosso tempo, a escolher onde colocamos a nossa energia e a respeitar os nossos limites. Sem culpa. O egoísmo que inicialmente nos deixava desconfortáveis quando nos escolhíamos, passa a ser visto (e sentido) como uma responsabilidade sobre escolhas mais conscientes.
É importante acolher esta nossa versão, sem a julgar constantemente. É importante dar espaço à sua existência. É importante escolher o que fica, o que importa, o que faz sentido. Porque, quando nos colocamos no topo da nossa própria lista, não por ego, mas por cuidado, estamos a criar uma base mais sólida do nosso ser, uma presença mais verdadeira e uma energia mais sustentável. Paradoxalmente, por mais inesperado que seja, é a partir de um lugar cheio de nós que conseguimos, também, estar melhor com os outros. Não por obrigação, mas por escolha.

