Começamos pela pergunta inevitável nesta reflexão: se a nossa voz importa, porque é que tantas vezes escolhemos não a usar?
Diversos são os momentos em que sentimos a frase formar-se dentro de nós. Surge clara e lógica. Sabemos o que queremos dizer. Sabemos porque o queremos dizer. A frase cresce dentro da mente, chega aos nossos lábios e depois fica ali. Suspensa. Não sai. Em poucos segundos, criamos mentalmente uma série de justificações para o nosso silêncio. Ora ‘não vale a pena’, ‘não queremos criar problemas’, ora ‘estamos a exagerar’ ou ‘alguém haverá de dizer alguma coisa’. Engolimos as palavras – e também as emoções. O momento segue, passa, e a nossa voz fica bem guardada dentro de nós.
Não é coincidência que tudo isto nos soe familiar. A maior parte de nós já viveu esta experiência conscientemente muitas vezes ao longo da vida. Em reuniões de trabalho, em conversas de família, em grupos de amigos, em situações em que testemunhámos algo injusto, em momentos em que alguém ultrapassou um limite ou simplesmente quando tínhamos uma ideia diferente da maioria. A questão é mesmo: porquê?
Uma das razões mais profundas é o medo social, subtil e quase invisível. Temos medo de sermos julgados, de parecermos arrogantes, de criarmos conflito e de ficarmos isolados. O medo surge como uma defesa ao que aprendemos desde cedo: falar pode ter consequências. Uma criança que questiona demasiado pode ser vista como ‘difícil’. Um adolescente que discorda pode ser considerado ‘problemático’. Um adulto que levanta demasiadas questões pode ser rotulado de ‘complicado’. Ao longo dos anos, estas mensagens acumulam-se, moldam o nosso comportamento e começamos a associar silêncio com segurança.
No entanto, há outro fator igualmente poderoso: a dúvida sobre nós próprios. Mesmo quando os argumentos são sólidos, perguntamo-nos em silêncio se estamos errados, se percebemos bem ou se os que nos rodeiam sabem mais do que nós. Numa hesitação profundamente humana, continuamos a valorizar a certeza ao invés da reflexão conjunta, em voz alta, como se só pudéssemos falar se tivermos a certeza do que estamos a dizer. Essa segurança total, desenganem-se, raramente existe.
Uma outra razão frequente para o silêncio é a vontade de manter harmonia. A maioria das pessoas não gosta de conflito. Queremos que os ambientes sejam tranquilos, agradáveis e previsíveis. Contribuímos – em silêncio, claro está – para isso. Levantar uma questão, discordar ou defender algo pode parecer um gesto que ameaça essa tranquilidade.
Importa sublinhar que quando uma voz se cala, o mundo fica ligeiramente mais pobre em perspetivas. A beleza da conversação humana está nas vozes – tantas vezes imperfeitas – que se encontram, questionam e transformam mutuamente. Muitas mudanças importantes na sociedade começaram com alguém que decidiu falar quando seria mais fácil ficar calado. Nem sempre essas pessoas estavam dotadas de certezas. Muitas vezes, tinham apenas uma convicção simples: ‘isto precisa de ser dito!’.
Dentro de cada um de nós há uma voz que quer participar, contribuir, questionar e, acima de tudo, construir. Uma voz que não precisa de ser perfeita para ter valor. É ela que reconhece que a nossa perspetiva sobre o mundo também pode fazer parte da realidade. Por isso, talvez a pergunta que iniciou esta reflexão possa ir ainda mais além: o que pode acontecer se usarmos mais (e melhor) a nossa voz? Talvez possamos permitir-nos descobrir que o medo diminui quando falamos mais, que discordar com respeito fortalece relações e que à nossa volta há sempre quem espere que ‘alguém dissesse aquilo’. Talvez, pouco a pouco, deixemos de sentir frases presas na garganta. Talvez seja mais óbvio que a nossa voz não precisa de ser a mais alta de uma sala para ter valor. Para isso, basta-lhe existir.

