Sem aviso e sem preparação possível, há momentos e situações na nossa vida em que tudo parece ruir ao mesmo tempo. Somos obrigados a parar, quando o mundo ‘lá fora’, continua a correr veloz, sem hesitar. Apenas, acontece. Acordamos e tudo aquilo que, na noite anterior nos fazia sentido, deixa de fazer. O rumo que acreditávamos ser o nosso dissolve-se, as certezas tornam-se dúvidas e aquilo que pensávamos ser começa a desfazer-se em pedaços difíceis de reconhecer. É desconfortável. É assustador. Muitas vezes, é profundamente doloroso.
A estes momentos, chamamos crise, fase difícil, queda, esgotamento, vazio, depressão. Somos inundados por uma incapacidade de reagir e até de coabitar. Esquecemo-nos, demasiadas vezes, que estes momentos talvez sejam, na verdade, pontos de viragem.
Quando estamos nesse lugar de dor e vazio, é quase impossível vê-lo dessa forma. O que sentimos é exclusivamente perda: de direção, de identidade, de motivação e de esperança. Há dias em que levantar parece uma tarefa demasiado pesada. Há um cansaço que não é físico, mas que pesa no corpo inteiro. Há perguntas que ecoam constantemente sem resposta e uma dúvida permanente e existencial: ‘E se nunca mais voltar a ser e a sentir-me como antes?”.
Mesmo quando ainda não temos propriamente consciência disso, a verdade é que este momento de dor pode não ser apenas ‘o fim de algo bom’. Na verdade, pode ser o ponto de viragem que nos faltava, o ponto final em algo que já não nos servia ou o fim de um percurso que não nos estava destinado e não nos pertencia. É difícil aceitar que a dor possa ter um propósito – mas, na verdade, estes momentos de quebra raramente são sobre regressar ao que éramos. Mesmo quando tentamos evitar a dor, ignorá-la e combatê-la, mesmo quando exigimos respostas rápidas e soluções imediatas, estes momentos de crise acabam por nos desvendar o seu verdadeiro propósito: dar espaço ao que ainda não fomos.
Os momentos de viragem raramente são instantes claros e bonitos. Não trazem logo luz, clareza e certezas. Muito pelo contrário, são fases que surgem no meio da confusão, da dúvida e do desconforto. São processos que duram (e doem) mais do que esperaríamos e, muitas vezes, só conseguimos reconhecê-los como tal depois do turbilhão ter passado. Nessa altura, tudo o que parecia só dor, desvenda-se em transformação. Percebemos que renascemos num lugar mais verdadeiro, mais inteiro. Um lugar no qual pertencemos realmente. Pouco a pouco, o que parecia um fim, começa a revelar-se como um novo capítulo: mais alinhado e mais autêntico.
Talvez a maior dificuldade seja confiar no processo quando ainda não vemos resultados, quando estamos no meio da incerteza, quando tudo nos parece fragmentado, minado de dúvidas, e quando a sensação de ‘não saber’ é demasiado evidente e constante. Sentimo-nos perdidos, mas não quer dizer que estejamos a falhar. Na verdade, estamos apenas a sair de um lugar que já não é nosso – e por mais desconfortável que isso seja, é um passo necessário e importante.
Não há crescimento sem algum tipo de desconstrução. Não há mudança real sem algum grau de desconforto. Não há novos capítulos sem o fim dos anteriores. A viragem é um ponto intermédio entre o que já não somos e o que ainda estamos a tornar-nos. É um caminho sem certezas, mas que exige disponibilidade para continuar.
Não nos estamos a perder. Estamos a reencontrar-nos.

