E se a responsabilidade for minha? A pergunta aparece subtilmente, mas é sentida como um estrondo. Depois de mais uma frustração ou de uma expectativa não correspondida, lá chega ela de forma impercetível, para nos lembrar que nem tudo o que nos corre mal é influenciado (e justificado) exclusivamente por fatores externos.
Durante muito tempo, habituamo-nos a explicar o que sentimos e vivemos através dos outros: o que disseram, o que fizeram e, principalmente, o que não fizeram. É quase automático. Contudo, há uma diferença profunda entre reconhecer o contexto (e a forma como o mesmo influencia a nossa vida) e entregar-lhe o controlo total da nossa vivência. Quando assumimos a responsabilidade, deixamos de ter onde nos esconder – já não podemos culpar o tempo, as circunstâncias, a sorte ou o comportamento alheio. Estamos diante da nossa vida, somos responsáveis por ela e, tantas vezes, isso causa-nos uma sensação de vazio. Não é solidão ou abandono, por muito que possa parecer. Na verdade, é espaço! Espaço para percebermos que, apesar de não controlarmos tudo o que nos acontece, temos sempre margem de escolha sobre como respondemos.
Num processo de profunda consciência, assumir responsabilidade implica aceitar que somos protagonistas da nossa própria realidade e, portanto, temos um papel (bastante) ativo na sua construção. Não de forma absoluta ou simplista, mas de uma maneira real. Participamos, quando escolhemos ficar, quando evitamos falar, quando adiamos decisões, quando ignoramos sinais, quando acreditamos em determinadas histórias sobre nós próprios. Reconhecer isto pode doer, pode carregar arrependimentos, dúvidas, receios… e até pode vir carregado de uma certa dureza connosco mesmos. Ainda assim, é esta consciência que nos traz algo novo: poder. Porque, se de alguma forma participámos naquilo que nos trouxe até aqui, então também podemos participar na mudança do que vem a seguir.
Há, no entanto, uma armadilha neste caminho: confundir responsabilidade com cobrança excessiva. Na responsabilidade, a culpa vem sempre ao de cima, quando não há perfeição e é fácil olhar para cada erro ou desvio como uma falha imperdoável – que estava ao nosso alcance evitar. É necessário olhar(-nos) com honestidade e compaixão. Estamos a aprender a navegar e crescer implica, inevitavelmente, tropeçar.
Com tempo, estabilizamos. A vida continua a trazer-nos desafios, imprevistos e momentos difíceis, mas nós posicionamo-nos de forma distinta diante das dificuldades. Esta mudança altera profundamente a experiência – dá-nos margem de ação mesmo quando as circunstâncias não são as ideais, permite-nos encontrar significado em situações que antes pareciam apenas injustas ou aleatórias e, talvez o mais importante, devolve-nos uma sensação de autoria sobre a nossa própria vida.
Assumir a responsabilidade por nós é, no fundo, um processo de regresso: à nossa capacidade de escolha e decisão, à nossa consciência, à nossa autonomia emocional. Não nos torna invulneráveis, mas torna-nos mais presentes, inteiros e alinhados com aquilo que somos e que queremos ser. O mais bonito deste caminho é perceber que não se trata de chegar a um ponto final sem imperfeições. Trata-se de construir uma relação connosco mesmos que seja suficientemente sólida para atravessar mudanças e incertezas. Uma relação onde há espaço para errar, ajustar e recomeçar.

