O tempo que vivemos tem-nos colocado à prova de formas muito fortes, profundas e difíceis. Sem dúvida que este é um momento de excepção a todos os níveis, com a vida a colocar nas nossas mãos a vivência de desafios que, provavelmente, nunca, nenhum de nós, alguma vez pensou que vivesse. Contudo, os momentos mais desafiadores das nossas vidas são também aqueles que mais nos fazem crescer, são aqueles que mais nos impulsionam para as mudanças que necessitamos, são os caminhos mais directos para a descoberta do nosso potencial e de quem nós somos.
Se é certo que estamos a viver questões individuais, também é verdade que existem muitos desafios do ponto de vista social e global, pois esse é também um dos grandes pontos que precisamos de mudar para que possamos evoluir. Durante décadas construímos uma sociedade de competição, de foco profundo no nosso ego, nas necessidades individuais. A própria vida, com tudo o que ela implica, levou-nos a esse desligamento da comunidade, da sociedade, do mundo, do planeta, em prol do que precisávamos para sermos bem-sucedidos face ao que era esperado de nós.
Mascarámos esse foco com a casa, os filhos, o parceiro ou a parceira, com as necessidades que todas essas parcelas de nós têm e que teríamos impreterivelmente de cumprir. Com isso, deixámo-nos para trás e esquecemo-nos de quem somos, protelámos sonhos e projectos, presos a necessidades que, sem dúvida, são válidas, mas que, na realidade, precisam urgentemente de ser revistas e reajustadas.
Hoje, mais do que nunca, somos convidados a um olhar para lá do nosso ego, para lá dessas supostas necessidades que carregamos em nós, e levados a olhar para o nosso Eu, para quem somos, para o que nos faz feliz, para o que é realmente importante. Com esse olhar, com essa mudança de foco, essa saída da periferia do nosso ser e o voltar ao nosso centro, compreendemos que nos desligámos duma parcela importante do nosso ser, o outro, nas suas mais diversas formas, seja ele o parceiro, a parceira, o filho, a filha, o irmão ou a irmã, o pai ou a mãe, ou até mesmo a sociedade.
Como nos foi incutido que temos de ganhar dinheiro para preservar o bem-estar de todos aqueles que dependem de nós, que não podemos falhar, que temos de lhes dar mais do que aquilo que tivemos, pusemos uma máscara de altruísmo e passámos a viver na ilusão de que estávamos a ajudar, de que estávamos a cumprir com a nossa parte, de que, na verdade, estávamos a fazer pelo outro, e não por nós. Contudo, não compreendemos que muito do que fizemos, e que continuamos a fazer, é apenas e unicamente por nós, para que os outros nos vejam nas pessoas que queremos ser, para que os outros reconheçam o nosso valor e o manifestem, para que os outros nos aceitem, nos amem, nos acarinhem, nos dêem um colo que necessitamos.
Por isso, em momentos como estes, em que estamos há meses a ser pressionados, condicionados, regrados, começamos a sentir-nos encurralados e, muitos, completamente perdidos. É neste contexto que surge o maior desafio dos nossos tempos, que não tem a ver com encontrar uma cura ou uma vacina para o bicho que anda a servir de Mestre para todos nós, mas sim o de compreendermos que não estamos sozinhos, que estamos em comunidade, que com ela crescemos e que, sem ela, só nos vamos afundar ainda mais.
Esquecemo-nos de que somos seres sociais, não no sentido das festas e das celebrações, ainda que elas também façam parte, mas sim na vivência comunitária, de caminho comum, de apoio, de ajuda, em prol de todos. Vamos para as redes sociais e achamos que conhecemos muita gente, reclamamos muito, escrevemos muitas coisas, tornando-as o depósito do vómito das nossas raivas, revoltas e frustrações, da nossa solidão, do nosso medo. Em vez de potenciarmos soluções, na verdade, e com as devidas excepções, geramos ondas de mais revolta, mais medo, mais desinformação. Mais uma vez, deslocamo-nos do nosso centro e vivemos numa realidade que não tem nada a ver com aquilo que é o nosso caminho.
Somos agora confrontados com uma necessidade de responsabilidade individual para que possamos preservar um bem-estar comunitário e social. Quando assim o integramos, somos capazes de fazer milagres, mas quando continuamos fechados nos nossos próprios umbigos, destruímos tudo o que tocamos, pois entramos em modo de sobrevivência puro e irracional. Não é necessária uma fórmula mágica, apenas bom-senso, apenas olhar o outro e vê-lo como uma parcela de quem somos, compreender que as nossas acções afectam os que nos rodeiam e que o contrário também é verdadeiro.
Este é um desafio à união, mas que nos coloca do outro lado do espelho, o da separação, o da divisão. Se assim não fosse, não nos uniríamos de forma consciente e estruturada, mas sim de forma interessada, como temos feito nestas décadas que nos antecedem. O que este tempo nos pede é um processo de união que funciona como um sistema de rodas dentadas e que, quando bem dimensionadas e após um esforço inicial, multiplicam a nossa força e nos fazem chegar mais longe. Tal só acontece quando somos todos colocados no mesmo espectro, horizontal e transversal, e nas nossas mãos fica a responsabilidade e a consciência individual, e essa é, sem dúvida, a grande dimensão do que estamos a viver.
Chegou o tempo da limpeza, da purga, de nos colocarmos no lugar certo das nossas vidas, da mesma forma que o fazemos também com todos aqueles que nos rodeiam. Sem isso, não conseguiremos evoluir e continuaremos num registo autocentrado, baseado na ilusão de que estamos a fazer muito pelos outros e por toda a gente, que somos bonzinhos e muito altruístas. Sem isso, continuaremos, mesmo sem nos apercebermos, a ficar presos à matéria, acorrentados a coisas sem sentido, sem capacidade de libertar o nosso grande potencial de prosperidade, de riqueza a todos os níveis.
Leonardo Mansinhos

