Num ‘Jogo da Culpa’ tudo começa de forma subtil. Algo corre mal e, no desconforto desse momento, a mente procura alívio. Um projeto falha, uma relação termina, uma oportunidade escapa. E nós, protagonistas desse cenário, precisamos desesperadamente de uma explicação, de um culpado, de um ponto onde pousar a frustração. Apontamos o dedo – às circunstâncias, aos outros, ao passado, à falta de sorte, à crise, à família, à infância, ao parceiro, ao mundo. Durante alguns instantes, sentimos um estranho consolo – porque se a responsabilidade não é nossa, então não falhámos verdadeiramente. Só que esse alívio é enganador.
A culpa não nos fortalece. Não nos devolve controlo. Pelo contrário, mantém-nos presos exatamente ao lugar onde não queremos estar. A culpa desfoca-nos da única coisa que podemos realmente transformar: as nossas escolhas. O ‘Jogo da Culpa’ oferece-nos uma saída fácil num momento delicado, onde o que mais precisamos é coragem. Culpar protege-nos do embaraço de admitir que também não somos perfeitos. Protege-nos da vulnerabilidade de reconhecer que também erramos. Protege-nos da dor temporária de assumir responsabilidade.
Quando culpamos, ficamos paralisados. Quando assumimos responsabilidade, ganhamos movimento. O momento de viragem acontece, por norma, quando a pergunta que fazemos a nós próprios passa a ser: ‘o que é que eu posso fazer com isto?’. É desconfortável, mas poderosa, até porque nos devolve ao centro da nossa própria vida.
Claro que vivemos em sistemas, relações e contextos que nos influenciam. Negar isso seria ingénuo. Contudo, há uma diferença enorme entre reconhecer essas influências externas ou entregar-lhes completamente o comando da nossa felicidade. Quando colocamos a responsabilidade da nossa felicidade exclusivamente nas mãos dos outros, estamos, na prática, a depender deles para sermos felizes. Essa espera é longa. Às vezes, interminável. Pouco justa, também.
A qualidade da nossa vida está, em grande parte, ligada às decisões que tomamos diariamente. À forma como reagimos nos diversos contextos em que nos encontramos. O que aceitamos, o que recusamos. Onde ficamos, para onde vamos, de onde saímos. Culpar é fixar-nos ao passado e aos outros. É escolher a dor, em vez de procurar ser a resposta à dor. Evitar essa escolha é permanecer num limbo emocional e deixar a culpa paralisar-nos e convencer-nos de que não temos poder. A vida encolhe, as possibilidades diminuem e começamos a viver em modo defensivo.
Assumir responsabilidade significa, por sua vez, reconhecer a nossa margem de manobra. Permite-nos parar de culpar o passado e começar e construir um futuro diferente, mais risonho. Procura-nos como protagonistas, como agentes principais da nossa própria história. O ‘Jogo da Culpa’ pode ser tentador, sim, mas não precisa de ser uma prisão desumana. Podemos escolher outra forma de estar, onde não entregamos a nossa felicidade como refém das circunstâncias. Nesse momento, algo se desbloqueia. A história deixa de estar focada no que nos aconteceu e passa a ser sobre o que decidimos fazer a seguir. Esta transição é poderosa e devolve-nos a possibilidade real de construir uma vida que não depende de encontrar culpados, mas sim de criar novos caminhos.

