De que cor é a dor? A que sabe um qualquer sofrimento? Quantas horas já gastámos com um lamento sem sentido? Quantos dias já teremos perdido a contar as nossas tristezas? Sim, onde será que encontramos a resposta a estas perguntas tão complicadas que a alma repetidamente nos faz? Como poderemos calar um coração que não entende onde se perdeu a nossa felicidade?
Dormimos mal. Sobrevivemos, dia após dia, sem energia e sós. Doí-nos o corpo. Mergulhamos em lágrimas sem saber porquê. A angústia e o vazio alimentam-nos. Sentimos um eco contínuo e sombrio, como se todo o nosso passado se concentrasse num aperto. Ligamo-nos a tudo o que possa minimizar aquela dor, desvinculando-nos de nós mesmos.
Acreditamos que a vida é demasiado dura. Que o caminho da vida é feito à custa de muito sofrer. A dor é indolor. É apenas o calor de algo que nos incomodou. É uma reacção defensiva do corpo perante um obstáculo que se interpõe entre o coração e a mente.
Por isso, quando custa a respirar para adormecer, para acordar e, até, para viver algo está muito errado nas nossas vidas. Respirar devia ser leve e tranquilo. Quando assim não é, não há dúvida que, fisicamente, o corpo está a dar-nos sinais claros e inequívocos que algo tem de mudar e já!
Precisamos de criar espaço em nós, conceder-nos tempo, para escutar o que sentimos. Parar diante de nós a ouvir o nosso corpo, a nossa história, o nosso sentir mais profundo. Passar a olhar menos para o que nos protege da dor e mais para a própria ferida, cuidando dela. De tal modo que, um dia, a ferida sare e a dor passe.
Para nos curarmos, temos que retomar aquelas memórias passadas que permaneciam vivas, porque o sofrimento sabe a passado. Sabe a momentos menos bons, que guardamos na nossa memória. São instantes em que uma tempestade abalou a nossa existência. E por isso mesmo, devemos deixá-los ali bem arrumados. O pó do tempo e do esquecimento fará com que eles deixem de fazer sentido.
À medida que se sai do abismo onde se chegou, torna-se cada vez mais claro que muitos dos nossos sentimentos, pensamentos e comportamentos prejudiciais tinham encoberto necessidades vitais, as quais precisavam de ser vividas e validadas. Damos voz a essas necessidades, expressando as nossas emoções mais profundas.
É assim que, ao aceder ao cerne da nossa dor, aquela que temos evitado no passado, progressivamente, a ultrapassamos. Passamos a investir no respeito, na bondade e atenção para connosco mesmos. Perdoamos quem pudesse ter contribuído para o nosso sentimento de desamparo, na forma de injustiça, de maltrato, ou de não suporte. Vinculamo-nos ao que sentíamos verdadeiramente. Partilhamos a nossa tristeza. Expressamos a nossa raiva de um modo assertivo e sereno.
Perdoamo-nos.
E, quando nos perdoamos, a mudança acontece. Porque ultrapassar a dor é também tornarmo-nos comandantes da nossa própria vida. Assim, mudar significa dar à vida o poder e propósito que lhe compete, porque, não restem dúvidas, a vida só tem um propósito: Fazer-nos felizes!
Resta-nos, então, esquecer todos os dias perdidos com as tristezas. Não podemos continuar a perder segundos desse tempo limitado. Sermos felizes e viver a nossa vida sem a presença da nossa dor. Sofrimentos, lamentos ou tristezas serão apenas pequenas pedras nesta vida tão imensa que decidimos abraçar.

