Olhar e ver o mundo que nos rodeia é, muitas vezes, perturbador e desanimador. Para qualquer um de nós que, tendo coração e sendo sensível aos problemas que as nossas sociedades e, por conseguinte, a nossa humanidade, têm, o simples exercício de estar informado, de saber o que se passa no mundo, pode tornar-se um momento de dor, de tristeza, de desilusão, de medo e revolta. É normal que assim possamos sentir, somos humanos, vivemos um tempo único e, em muitos aspectos, profundamente difícil e desafiador, e, na verdade, a vivência e experiência de todo o tipo de emoções é, no fundo, um dos grandes propósitos da nossa passagem por este planeta e por este plano.
Vivendo há largos meses em pandemia, entre restrições e medidas que nem sempre são compreendidas ou aceites, também nem sempre justas e equilibradas, com ainda maior evidência das diferenças entre países ricos e países pobres, somos hoje também levados a enormes problemas humanitários derivados de guerras, de situações limite que colocam populações num ainda maior sofrimento e sem respostas efectivas aos seus problemas, assim como do reflexo do extremismo e polarização em que vivemos. Como se não bastasse, as (cada dia maiores) evidências das alterações climáticas trazem catástrofes pelo planeta inteiro, amplificando uma dor e uma tristeza pelo comportamento humano, pelo desrespeito pela Terra e por si mesmo. Tudo isto, mais todos os problemas e questões locais, familiares e pessoais, fazem com que nos sintamos, muitas vezes, perdidos, sem rumo, desmotivados, desajustados.
Nestes tempos tão especiais é preciso entender que, e adaptando livremente um antigo ditado chinês, a água que faz o barco flutuar é também a que o pode fazer afundar-se. Isto significa que, ainda que estejamos neste mundo, que o nosso caminho se faça nesta vida, neste plano, neste tempo, escolhido por nós por ser aquele que melhores condições nos dá para cumprirmos o nosso propósito (pelo menos assim acredito), é preciso saber navegar nele e, sempre dentro do possível, não nos deixarmos invadir por tudo o que nele se passa. Se nos deixamos assolar por todos os males do mundo, se nos deixamos envolver nesta malha complexa de dor e sofrimento, de injustiça e polarização, de medo e radicalização, vamo-nos tornar parte de tudo isso também, a água vai entrar dentro do barco e vai afundá-la, e nada poderemos conseguir fazer de diferente neste plano.
Esta não é, sem dúvida, uma tarefa fácil. Somos humanos, temos e precisamos de viver emoções, e, perante tudo isto que vivemos e em que estamos envolvidos, é mais fácil isolarmo-nos, afastarmo-nos, deixando-nos levar por ideias e discursos que, apesar de advogarem luz e sabedoria, são, na verdade, mais pontos de polarização, trazendo o mesmo que criticam nos outros, o medo, a dúvida, o receio. Confrontados com tudo o que nos rodeia, é fácil sentir a desilusão, a angústia, a impotência, baixar os braços e, de alguma forma, desistir de tentar marcar a diferença, de tentar fazer algo diferente.
O tempo que vivemos é, acredito, e não num mau sentido, um tempo de desilusão, um tempo de cortar de véus e de confronto com as diversas realidades. É um tempo de convulsão, pois a urgência de sentir e viver emoções é tão grande, que a única forma de o fazer é através destes movimentos ondulantes fortes, intensos, revoltosos, pois são eles que nos permitem fazer os processos de limpeza, cura e transformação que necessitamos e que nos estão a ser solicitados.
Este olhar, não só para dentro, mas também para aquilo que está mais ao nosso redor, permite-nos ver a beleza à nossa volta, permite ver aquele pequenino caule verde que desponta no meio da terra queimada, anunciando uma nova vida, não porque sobreviveu, mas porque persistiu e respeitou a sua natureza, a da vida.
Hoje, mais do que nunca, é preciso olharmos para o mundo que nos rodeia, mas, ao mesmo tempo, voltar o nosso olhar para dentro e para as nossas esferas mais próximas. Se olharmos apenas ao longe, para tudo o que se passa no mundo, que já sabemos de cor e salteado, vamos ser atravessados e aglutinados pelo medo e pela dor, mas é com o voltar para dentro e para o nosso redor que podemos encontrar os milagres, que podemos encontrar o amor. Isto significa, na verdade, que precisamos de largar o hábito de vermos apenas o grande panorama e focarmo-nos em pontos onde podemos actuar e onde a beleza existe e persiste, apesar de tudo.
Se é verdade que existem coisas muito duras, difíceis e más no mundo, também o é a existência de coisas lindíssimas, de bênçãos, de dádivas, de milagres. Nada é exclusivamente negativo ou positivo, não é apenas trevas ou apenas luz. A experiência de vivermos uma jornada terrena é a integração destas duas naturezas, destes dois lados, de forma a podemos abrir a nossa consciência, de nos podermos aperfeiçoar e crescer e, assim, superar a simples e limitada existência neste plano.
Viver este tempo é um acto de profunda força e coragem, é o reconhecer do poder do nosso coração e da sua vontade. Ultrapassarmos estes desafios e construirmos algo diferente não passa por nos colocarmos numa posição de isolamento, não passa por nos afastarmos do mundo, não passa por simples e unilateralmente desligarmos a televisão ou não vermos notícias, mas sim por encontrarmos o nosso lugar na nossa própria vida, colocarmo-nos no nosso lugar e, assim, compreendermos a nossa própria luz. É este voltar para dentro, que tantas vezes refiro nestas reflexões e noutros artigos, palestras e vídeos, que é uma das chaves para a vivência destes tempos.
Olhar para dentro e recentrarmo-nos permite-nos reconhecermos que somos e temos tudo o que precisamos para fazer esta jornada, que dentro de nós, no nosso coração, existe um poder infindável, que é trazido pela coragem, a voz mais audível do amor. Este olhar, não só para dentro, mas também para aquilo que está mais ao nosso redor, permite-nos ver a beleza à nossa volta, permite ver aquele pequenino caule verde que desponta no meio da terra queimada, anunciando uma nova vida, não porque sobreviveu, mas porque persistiu e respeitou a sua natureza, a da vida. A natureza do ser humano é o amor, mas ele só pode existir quando os nossos corações têm espaço para que ele possa florescer, e, quando tal acontece, inicia-se, mesmo que lentamente, uma reacção em cadeia extraordinária.
É fácil, perante tudo o que nos rodeia, desistirmos de acreditar no amor e na beleza, pois os véus caíram e o que vemos é tão duro e feio que só queremos fugir. No entanto, é quando os véus se rasgam e o mundo se revela à nossa frente, que mais precisamos de o amar, não pelo que existe e pelo que ele é, mas sim pelo facto de que, apesar de tudo, continuar a existir uma beleza única e especial na vida, na Terra, na humanidade, que merece ser amada. É tocando corações, levando luz e esperança, da forma como conseguirmos, directa ou indirectamente, onde existe dor e sofrimento, que conseguimos cumprir o nosso caminho e marcar a diferença. Não o fazemos fugindo do mundo, da realidade, desistindo, mas sim procurando a beleza que continua a existir, olhando à nossa volta e não apenas para o grande plano, compreendendo que a luz persiste e amplifica-se em todos os locais, até mesmo naqueles onde a escuridão é profunda e tão densa, que quase se consegue tocar, mas que, para tal, só precisa de ser acesa.
Leonardo Mansinhos

