Todos os percursos contêm em si mesmos um conjunto precioso de ensinamentos, de aprendizagens, de dádivas que a vida nos oferece através dos acontecimentos, das situações vividas, das experiências que passamos, para podermos crescer e evoluir. Como uma escada, em que cada degrau precede o seguinte, e em que precisamos de os percorrer num mesmo sentido, também na nossa vida, nas aprendizagens que vamos fazendo, tudo tem uma cadência certa que, quando tentamos acelerar, normalmente leva-nos a dar grandes trambolhões.
Temos todos muita pressa, muita impaciência, que confundimos com vontade e determinação, queremos tudo rapidamente, achamos sempre que o tempo é demasiado longo ou demasiado curto, vivemos uma constante necessidade de estar onde achamos que devíamos, mas quando lá chegamos nem paramos para saborear essa vitória, pois a nossa convicção é que já deveríamos estar noutro sítio qualquer. Nesta inconstância, nesta instabilidade, a vida passa por nós, sem a vivermos, sem dela retirarmos as bênçãos, as dádivas, as coisas mais belas. Sobrevivemos, tão pura e simplesmente porque nos esquecemos do que é este percurso que chamamos vida.
A vida não pára, é certo, nem podemos tirar uma folga ou umas férias dela para fazermos os nossos processos ou compreendermos as lições que ela nos dá, mas cada passo que nela damos pede uma integração, pede um mergulhar em nós, que só é possível quando damos espaço para que tal aconteça. A planta não faz uma paragem no seu crescimento, na sua alimentação e no seu desenvolvimento para as suas flores abrirem ou para dar os seus frutos, tudo está integrado e faz tudo parte do mesmo processo. Contudo, as flores não abrem sem a planta crescer e ter estrutura, os frutos não surgem sem a planta poder sustentá-los. Tudo tem o seu tempo certo, tudo tem o seu momento, mas tudo está integrado.
Da mesma forma, a nossa vida acontece, pedindo-nos para vivermos cada momento que nos é oferecido com tudo o que está disponível, que aproveitemos cada tempo no que ele tem para nos oferecer, percebendo que, normalmente, as coisas não são quando nós queremos, mas sim quando estão preparadas para ser. Mesmo quando tudo parece caótico, quando as dificuldades surgem ou quando o medo quase nos afoga, há uma experiência, uma vivência, um caminho a fazer, mas tal só é possível quando aceitamos que esse obstáculo que surge, essa dúvida, esse desafio, também ele, faz parte do percurso.
A aprendizagem, a experiência, a recompensa, não são processos isolados de tudo o resto, bem pelo contrário. Tudo existe ao mesmo tempo, mas no seu tempo certo. Quando não somos capazes de ver esta realidade, vivemos nos extremos e nunca no centro, classificando tudo, indiscriminadamente, como bom ou mau, como positivo ou negativo. No meio duma tempestade também pode acontecer um milagre e também podemos observar uma certa beleza. Ainda que não retire a dificuldade que a própria tempestade nos coloca, dá-nos um alento, uma esperança, um sentido, mostra-nos algo que precisamos de ver, ensina-nos algo, coloca eventualmente uma semente que, mais tarde, poderá germinar.
Se não conseguimos ter esta compreensão, olhamos a felicidade como um objectivo e não como uma forma de estar, um caminho por si só. Se não conseguimos ter esta percepção da vida, essa felicidade nunca chega, nunca se concretiza, pois quereremos sempre mais, procuraremos sempre algo diferente, nunca ficamos satisfeitos, porque não sabemos saborear vida, porque não nos permitimos receber o que ela tem para nos dar e, como uma criança que agarra um galho duma árvore e transforma-a numa espada ou numa varinha de condão, encontrar a beleza e a magia em tudo o que existe e que vivemos.
Todas as coisas têm o seu tempo certo e todas elas têm algo para nos ensinar e nos oferecer, mas, nomeadamente nas que são desafiadoras, é preciso ter a coragem de as abraçar, de com elas agir, de através delas nos compreendermos e conquistarmos a nossa própria voz. Nada disto isenta a dor, o desafio ou até o sofrimento, não é sequer uma utopia, mas sim um caminho. O Tempo é um mestre sábio e muito exigente, que nos solicita uma enorme aceitação e uma profunda resignação, consciente, positiva e activa, ao que o caminho nos coloca, para compreendermos que cada vivência mais desafiadora não é um castigo, um vaticínio ou um sacrifício, e que também não precisamos de ter medo de perder as coisas boas que chegaram até nós. Tudo tem o seu tempo, o seu lugar, tudo está alinhado, a vida é próspera quando a deixamos fazer o seu percurso, compreendendo que cada momento oferece-nos a capacidade de nos superarmos, de nos elevarmos para além de nós mesmos, para transformarmos o chumbo em ouro e, assim, redescobrirmos a nossa verdadeira Essência.
Leonardo Mansinhos

