Parece clichê, mas não é. Viver mais presente não é apenas uma sugestão banal e previsível que nos chega regularmente, através de frases inspiradoras e bonitas. Viver mais presente é, acima de tudo, escolher conscientemente estar – mesmo – onde se está. Com tudo o que isso implica: entrega, escuta, atenção e vulnerabilidade.
Estamos cada vez mais ligados, mas tantas vezes permanecemos desligados do que realmente importa. Os nossos olhares dividem-se entre o presente e o ecrã. Escutamos quem nos está a segredar ao ouvido e, em simultâneo, a música que está a passar no outro lado do phone. O corpo está ali, mas a atenção e o coração vão saltitando entre um like, um pedido de conexão e um e-mail que, afinal, não era assim tão urgente.
Vivemos num scroll diário e perdemos minutos – ou horas – entre publicações e notificações. Quantas vezes vemos sem ver e sentimos sem sentir? Contrariar este impulso automático de pegar num ecrã a cada segundo de pausa é urgente e necessário. A presença resiste à ideia de que precisamos de estar sempre ligados, porque só desta forma estamos a par de tudo. A verdade é que, quando estamos constantemente online, ficamos muitas vezes ausentes da nossa própria vida.
O offline é um desafio inquieto porque nos permite reparar nos pormenores mais e menos desejáveis. Estarmos inteiros no aqui e no agora dá-nos a possibilidade de apreciar os detalhes, mas também torna o silêncio ensurdecedor e inconveniente. A vida no seu estado mais puro – e real – tem tanto de bela, como de ruidosa. Um conjunto de olhares cruzados tanto nos soa bonito, como profundamente desconfortável. A escuta atenta embala-nos, mas também nos desarma. Uma conversa sem filtros pode ser fluida e desejável, porém também nos coloca em perspetiva. O espontâneo pode ser tentador e, ainda assim, muito incomodativo.
Constantemente ligados ao mundo digital, criamos barreiras protetoras que nos protegem – ou anestesiam. Os conteúdos rápidos e descartáveis mantêm-nos ocupados o suficiente para não ouvirmos o que a vida nos está realmente a dizer. Viver mais presente implica desligar e acalmar esse ruído. Nesse momento, emerge tudo o que estava camuflado: o vazio, a saudade, o entusiasmo, o desejo, e tantos outros sentimentos sem fim. Despidos, não temos como fugir quando uma emoção nos atravessa. Resta-nos permitir, mesmo no desconforto.
Ao contrário do que imaginamos, é o offline que nos convida à exposição (mais) vulnerável. Aqui, agora, não temos como editar, apagar, nem passar à frente. Somos inteiros, vivemos um verdadeiro encontro – numa sala demasiado iluminada, sobrecarregada de câmaras com o foco exclusivamente em nós.
Estar mais presente não nos poupa à intensidade da existência. Muito pelo contrário. Viver com maior presença dá-nos algo muito maior: a possibilidade de viver com verdade e em intimidade. Não precisamos de mudar tudo de uma vez, mas também não temos como ignorar que esta é a forma mais bonita e autêntica de dizer sim à vida – tal como ela é. Agora.

