É nas escolhas socialmente aceites que, muitas vezes, acabamos por nos encontrar – ou, talvez, por nos perder. Crescemos, escolhemos uma área profissional com a qual, aparentemente, nos identificamos, completamos um curso dentro do prazo pré-estabelecido, arranjamos um emprego, um parceiro ou parceira e uma casa para a vida, temos filhos (idealmente dois e, de preferência, ‘um casalinho’) e repetimos o ciclo. É um caminho seguro, consensual, aplaudido e aprovado – pela família, pelos pares, pelos olhos (também eles inseguros) que nos rodeiam. É um caminho sem muitas questões, que esperam de nós e dos outros, mas não é necessariamente o nosso. No meio deste ‘piloto automático’, uma sensação de incompletude instala-se, como se alguma coisa essencial estivesse em falta e a vida, parada algures no tempo, estivesse suspensa e estagnada.
Só que a vida apresenta-se com múltiplas possibilidades, principalmente nos momentos em que paramos – mesmo que só por um instante – e respondemos, com exatidão e verdade, à pergunta: “onde está o que me apaixona?”. À primeira vista, é uma questão simples, mas é capaz de desarrumar gavetas inteiras por dentro. Trata-se de descobrir aquilo que nos move, que faz com o que os nossos olhos brilhem sem esforço e que, consequentemente, nos faz sentir vivos e inteiros.
Descobrir a nossa paixão é, acima de tudo, um processo, tantas vezes inacabado ou em constante evolução. É um caminho que se faz de escutas interiores, de tentativas e de (milhões) de erros, de silêncios e de entusiasmos. Nem sempre é imediato, nem sempre é claro. É de avanços e recuos. É de inseguranças, de desafios, de riscos. É um trilho descalço, que nem todos experimentamos percorrer, mas ele existe – e está mais próximo do que imaginamos ou pensamos ser possível. Nele, encontramos uma nova forma de estar – mais alinhada com quem somos. Há liberdade no corpo, silêncio na mente e uma sensação de plenitude de valor inestimável.
Neste caminho que saí da zona de conforto, não há fórmulas (nem formas) certas, mas o impacto é certeiro. Quando o encontramos, sabemos que estamos onde devemos estar. Há leveza, energia e presença. Somos certeza nas incertezas, perfeição nas imperfeições. Encontramos coerência entre o que somos e o que fazemos. Este é um percurso de coragem, que implica desprendimento, recomeço e muita escuta ativa – sobre o que nos entusiasma, o que nos esgota, o que nos faz perder a noção do tempo e o que nos devolve sentido ao mundo.
Se chegou até aqui e sente que ainda não descobriu a paixão que a move, não desista já de a procurar. Às vezes, ela esconde-se nos cantos mais inesperados e nem sempre se apresenta com claridade. A paixão vive de inquietude e é camuflada pela curiosidade!
Até que esse encontro aconteça, viva de forma apaixonada – com presença, atenção aos detalhes e vontade de crescer. Permita-se experimentar, arriscar, pintar fora dos riscos. Explore caminhos que talvez nunca tenha considerado. Confie. Não ignore chamamentos internos e não deixe adiado para sempre a procura. Ao contrário do que se pensa, a paixão não é um destino fixo. É uma bússola, um farol interno. Não se trata de encontrar algo fora de nós, trata-se, isso sim, de nos reencontrarmos por dentro, num ato de coragem, de fé e de amor. Nunca é tarde demais para começar a viver com mais verdade.

