Somos seres de listas intermináveis. Mal riscamos uma tarefa, acrescentamos uma e outra nova. Há sempre alguma coisa por fazer, por melhorar, por alcançar. Há quem lhe chame inconformismo – e também é, está certo. No entanto, há um certo desconforto quando não há nada para fazer. Lidamos mal com o tédio, porque, desde cedo, não fomos habituados a ter intervalos de tempo que nos permitissem só estar – com o objetivo maior de realmente estar. Estar ocupado parece sinónimo de ser bem-sucedido. Somos uma agenda frenética, com dias que correm demasiado rápidos e horas e horas de ruído literal e mental. Esquecemo-nos de uma habilidade fundamental: apreciar a paz e o silêncio.
Ansiamos por descanso e somos queixa permanente de falta de tempo, mas depois temos demasiada urgência em preencher vazios, somos inquietação no tempo livre e precipitamos tarefas, mesmo que irrelevantes. É curioso e uma autêntica ‘pescadinha de rabo na boca’ – porque depois voltamos ao discurso do cansaço, da necessidade de abrandar, da carga mental e da exigência dos dias sempre ligados. Corremos contra o tempo, sem saber bem para onde.
Na era da estimulação constante, parar tornou-se um ato quase revolucionário. Os escassos minutos numa fila de espera são preenchidos com o telemóvel na mão. Não sabemos estar em pausa, mas ela é essencial. Os momentos de ‘nada’ não são falhas, são bens preciosos e parte essencial da nossa sanidade. Há muito poder nos momentos de pausa, eles não têm que ser tabu para sempre.
Encontrar paz, silêncio e o nosso ‘lugar ao sol’, no meio de um mundo que grita permanentemente por nós, não é fugir ou desistir. É aprender a estar sem culpa. É sair de casa sem o telemóvel na mão, é caminhar sem auscultadores, é sentar no sofá e ficar confortável, é espreitar pela janela e demorar. É reaprender a escutar os nossos próprios pensamentos sem querer silenciá-los ou distraí-los.
Este caminho, claro, não é imediato. No início, a mente grita e lembra-nos de tudo o que podíamos (e devíamos) estar a fazer. Dá-nos a sensação de tempo perdido. Contudo, se insistirmos, treinamos para que surja um espaço novo – uma espécie de aconchego interior que, curiosamente, nos devolve energia. A paz e o silêncio encontram-se, na verdade, dentro de nós, principalmente quando aprendermos a parar sem culpa, a respirar sem pressa, a estar presentes mesmo nas ausências. Ao contrário do que possa parecer, é nesses momentos, aparentemente tão vazios, que muitas respostas surgem, que a criatividade ganha luz e que o verdadeiro descanso acontece.
Da próxima vez que sentires o impulso quase obrigatório de preencher cada segundo da agenda caótica, experimenta resistir. Fecha os olhos, respira fundo, uma e outra vez. Ouve o silêncio e foca-te nele. Permite-te. Nesse instante, não faças nada. Escolhe cuidar de ti.
Foi difícil, não foi? Repete. Volta a repetir. Corre contra a maré. O maior luxo que te podes oferecer talvez seja mesmo esse: simplesmente estar, simplesmente ser.

