A capacidade de ver a vida com olhos deslumbrados é talvez a maior fonte de felicidade que conhecemos. Experimentar tudo como se fosse a primeira – ou a última – vez, é mágico e profundo. Apreciar os encontros inesperados, as coincidências sem explicação e as peças do puzzle que a vida se encarrega de encaixar só é possível para quem (ainda) se permite maravilhar.
Numa presença e entrega total ao momento, todas as crianças vivem nessa luz, onde tudo é novo e merece ser apreciado com tempo que não tem tempo. Na sua ingenuidade e sede de mundo, há descobertas constantes. Todas, sem exceção, são seguidas de um “uauu!” sonante, espantado e surpreso.
Então, desde quando deixamos de ver (e viver) dessa forma intensa e em admiração? Em que momento crescemos assim – demasiado? Talvez, quando nos embebemos em exclusivo numa vida acelerada, cheia de horários, responsabilidades e obrigações. Quando passamos a andar apressados, com a cabeça cheia de listas, metas e obrigações. Talvez, quando deixamos a rotina ocupar o nosso dia-a-dia, numa urgência constante em fazer, cumprir, continuar, produzir, não parar. Talvez, quando não nos permitimos sentir o respirar, quando a chuva passa a ser incómoda e o canto dos pássaros ecoa como um ruído de fundo.
Quando foi a última vez que se entregou desmedidamente a alguém ou a algum momento? Registou-o? Onde? No coração? Ainda tem presente o canto dos passarinhos pela manhã, o cheiro de uma flor que acaba de chegar, o calor do sol primaveril, a dança alegre dos dias mais longos ou das primeiras folhas de outono a cair das árvores? Consegue voltar a um abraço onde se demorou, ao último toque que arrepiou ou àquela viagem sem horas marcadas?
No entanto, apesar de até poder parecer que a magia da vida desapareceu, a verdade é que ela ainda vive em si. Na criança que foi, no jovem que se transformou e no adulto que é. Acreditar nela não exige grandes mudanças, mas é um exercício de consciência. Exige presença, um olhar mais atento e um coração mais aberto. (Re)acreditar na magia da vida é uma escolha: dos que desaceleram, estão presentes e encontram a capacidade de se entregar. É uma possibilidade que se reflete junto daqueles que se permitem sentir. Sentir de verdade.
A magia nunca foi embora. Está no mundo, na vida. Está em si, sempre que escolhe ver com o coração e viver na liberdade de ser quem é. Pode regressar a ela sempre que quiser – basta trabalhar a capacidade de ver beleza onde, aparentemente, só se vê habitual.
Não são poucos os dias aparentemente iguais aos outros, onde, de repente, tudo muda: porque um estranho lhe sorri na rua, porque reencontra alguém de forma inesperada, porque sente paz nos passos serenos com que percorre as ruas de sempre, porque recorda cheiros de infância ou porque aprecia o silêncio da manhã. De um dia trivial, comum, sem aparente importância, recolhem-se pequenos sinais que renovam certezas de que a vida ainda tem muito para oferecer. Em particular, nos seus detalhes mais simples.
A felicidade não está nos grandes momentos, está sobretudo na forma como vive os pequenos.

